Filhos Crescidos

Não existe nada mais emocionante do que colocar um filho no colo pela primeira vez, tenha ele vindo da barriga ou do coração.  Vão crescendo, pais e mães seguem ensinando e aprendendo com eles. Todos os dias uma nova descoberta e, assim, todos vão amadurecendo juntos.  São muitos os prazeres durante este trajeto, uma curtição alimentar o filhote,  limpar, vestir, passear, brincar e depois dormir abraçadinho. E ele vai crescendo e aprendendo cada vez mais coisas, engatinha, caminha, sua curiosidade faz com que ele pense que pode mexer em tudo. Tudo mesmo. Surgem as primeiras palavras, muitas vezes indecifráveis, e cada vez mais ele surpreende com tanta agilidade e sabedoria. Um espanto este menino. A quem será que puxou?

Mas o problema é que ele cresce. E rápido. Logo ele já está na escolinha, cercado de amigos e daí pra frente só vai. Quanto mais ele conhece o mundo, mais ele quer conhecer e tudo isso com uma velocidade sem freio. A tecnologia trouxe muitas coisas boas, mas com ela também veio a distância cada vez maior das brincadeiras do jardim, da rua, das peladas, da casinha na árvore. A geração do iphone, ipad, imac é aquela que não sabe o que é brincar de polícia e ladrão, de esconde-esconde e de caçar vagalumes. É a geração do já vou. Já vou estudar, já vou dormir, já vou tomar banho e escovar os dentes. E enquanto ele não vai fazer o que deve ser feito, os dedinhos continuam ali teclando com uma ânsia sem fim. Impressionante.

A adolescência é outra fase danada. Ele cresce, termina a escola, entra na universidade e se forma. E agora? O que fazer numa época em que empregos estão escassos. E mesmo que desse em árvores ele não saberia como colher, por que não brincou no jardim anos atrás. Surgem os conflitos internos e os atritos entre gerações. E os pais se requebram pra conseguir acompanhar e de um jeito ou outro tentar ajudar. Pra completar esta fase,   ainda vem a alegria do primeiro amor e a tristeza do fim dele. Sim, eu sei que dói. Mas o pior ainda está por vir, o primeiro carro. Aí sim é o fim da paz, para os pais, lógico, porque para o filho nunca é problema, tudo ele sabe resolver, ele sabe se cuidar, aliás, os pais são sempre muito exagerados. Ainda bem que existe celular para tranquilidade da família, que serve para ele mandar notícias e atendê-lo quando tocar. Só que ele não manda notícias e nem atende quando toca. Ora, ou estava no silencioso, ou no quarto, ou sem bateria. Dá pra imaginar? Não. Aliás, é muito difícil imaginar estas hipóteses, o mais provável é surtar imaginando um sequestro relâmpago.

Que saudade daqueles tempos. Que saudade de dar banho e trocar fraldas. Que saudade quando se sabia onde encontrá-lo, quando se conhecia os pais dos amigos, quando ele não bebia, não dirigia, não entrava em crises existenciais. Era tão mais tranquilo. E ainda tem pais que se estressam quando o filho fica gripado, quando  não quer mais aquele sapato por pura birra, quando  não quer comer brócolis, quando  vai mal na prova. Antes estas preocupações, do que não dormir enquanto ele não chega em casa.

 

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Papai Noel

Dizem que a história do Papai Noel foi inspirada na figura de um Bispo do século IV, chamado São Nicolau, que viveu onde hoje é a Turquia. O tal Bispo era esbelto, não usava cores fortes e tão pouco era puxado por um trenó cheio de renas a voar pelos ares distribuindo presentes. O que ambos tem em comum? A bondade.

Mas então, de onde será que veio esse cara gorducho e barbudo, vestido de vermelho e usando um cinto preto que faz salientar ainda mais sua barriga? O autor e novo alfaiate do bom velhinho foi a Coca Cola, em 1931. Para incrementar as vendas, o marketing apostou nas cores da marca e, não é que deu certo? O povo adorou. Aprovadíssimo. Gol de letra. Nosso querido gordinho mantém-se com este modelito até hoje.

Pois bem, soube que vésperas do último Natal tentaram entrar em contato com ele, para marcar um encontro num orfanato da região, mas não conseguiram localizá-lo. A razão? Imagino que tenha sido o calor de um verão que entrou com toda a vontade pra estas bandas de cá. Também pudera, com aquela roupa toda, bota e touca de lã, na certa ele ficou lá no outro hemisfério. Só pode. Quem seria doido pra descer até aqui, sem outra muda de roupa? Ninguém pensou num modelo mais leve pro pobre coitado poder desfrutar de um país tropical? Poderiam ser as mesmas cores, mas cá entre nós, uma bermuda vermelha floreada, uma regata e uma havaiana preta não seria má ideia. Tudo bem manter a sua carruagem de renas, afinal, lá pelas nuvens sempre bate um ventinho gostoso. E se nas casas ele fosse recebido com uma água gelada ou um chopinho, melhor ainda. Imagina se fosse eu, você ou qualquer outro habitante de um lugar que está em pleno verão, sair perambulando com um traje apropriado para um frio de rachar, carregando um saco super pesado nas costas, não é pra qualquer um. Na certa ele passa mal, mas é tão generoso que nem reclama.

Na última ceia, família reunida e comida na mesa. Peru, fios de ovos, arroz a grega, farofa, salada de maionese, seu Noel bateu na porta, para alegria e excitação das crianças, entrou e se sentou para distribuir os presentes. Foi quando minha filha, que já não é mais criança, perguntou por que o Papai Noel é o único que não ganha presente. Ele escutou. É velhinho, mas tem boa audição. Levantou-se de onde estava, atravessou a sala e veio direto na autora da dúvida. Pediu pra ela repetir. Sem jeito ela obedeceu. E ele, com a boca arreganhada, disse: Pois é, tá vendo? Eu também nunca entendi isso.

Faz parte da tradição, mas sempre haverá dúvidas, questionamentos, aquele grilo falante que fica azucrinando querendo saber de tudo e que algumas vezes nos coloca no meio de um conflito. Porque num País tropical não se pode ter um Papai Noel tropical? Imagina ele no Rio de Janeiro, chegando com um calção de banho e uma prancha de surf embaixo do braço, tudo vermelho, lógico. Não é que ele ia ficar bem bonitinho?

 

A viagem

A viagem começou bem cedo, as sete da madrugada. Era noite ainda.

Assim que o ônibus partiu, apagaram-se as luzes e os passageiros caíram em sono profundo. Pelo silêncio que se seguiu foi um apagão geral.

Já passava da metade da viagem quando os primeiros  celulares começaram a tocar. Seria pedir demais que eles estivessem no silencioso. Não estavam. A paz estava prestes a terminar.

Impossível não escutar a conversa alheia. ” Morreu? Ai meu Deus, quando foi? Não me conta, puxa vida. E quando será o velório? Ah amanhã de manhã. Coitado.” Mas pelo jeito o falecido não era íntimo. Ela nem chorou.

Uma senhora mais na frente atende o telefone e deu pra perceber que ela não escutava bem. ” Oi filha, saí as sete, devo chegar as nove e meia. O médico é as dez. Hein? Ele não vai poder me buscar? Então vou de taxi e encontro ele lá. Hein?” Pobre senhora, iria ao médico sozinha. E ainda de bengala. Sacanagem. Como é que a filha não vai buscar a própria mãe?

No banco de trás desencadeou-se um ataque incontrolável de tosse. Só rezando pra nenhum micróbio pular pro banco da frente. Sempre assim, quanto mais silêncio se quer, mais barulho se ouve.

Um  bebê lá no fundão acorda e chora por uns cinco ou dez minutos intermitentes, mas pareceu uma eternidade. Acordou até o tio que roncava.

Realmente a paz e o silêncio haviam chegado ao fim. Dormir assim, sem chance. Que jeito? Na próxima vez é prudente não esquecer o fone de ouvido. Antes uma música suave pra embalar o sono, do que esta serenata toda.

Ernani

A ligação é interurbana, provavelmente São Paulo. É da companhia telefônica. Já é a enésima vez. Uma voz pra lá de melosa começa alugando seu tempo, como se você não tivesse mais nada para fazer. Oi bom dia, se você for o Ernani diga sim, se não for diga não. Depois de dizer não, a voz continua. Se você conhece o Ernani diga sim, se não diga não. Outro não. Mas ela não desiste. Ela quer que você mande um recado pro Ernani. Mas você não conhece o cara, que maluquice é esta? A esta altura já deu pra notar que a criatura não é uma pessoa. É uma máquina. Como explicar que você não conhece nenhum Ernani? A máquina não dá esta opção. Ela só quer saber do Ernani.

Este número de celular me pertence há muito tempo, como é que ele foi parar com o Ernani?  E ainda não pagou a conta? Poxa Ernani, me ajuda né? Não vai me deixar com o nome sujo. Nunca passei por isso, nunca fiquei devendo, só me faltava agora tu começares a me atormentar com a tua dívida. Não né.

Há uns meses descobri que uma pizzaria publicou o meu celular no material de divulgação por engano. O cara até me propôs comprar meu número, mas não fechei negócio por que gosto muito da sonoridade dos algarismos, eles rimam, parece mais um poema. Sem contar ter que avisar todos os meus contatos da troca. Não foram poucas as encomendas de pizza, dúvidas sobre sabores e valores. Vocês têm tele entrega? Algumas vezes até dava vontade de espichar o assunto. Sim temos tele entrega, qual o sabor, qual o endereço. Mas seria sacanagem. Foram meses de tormento.

Agora que parece ter me livrado da pizzaria, começou o Ernani. O que será que tem este número? Quem será o próximo? Só espero não ser ninguém mal intencionado, nenhum detento, nenhum fraudulento. Também espero que o mesmo equívoco não se repita com cartão de crédito, conta de luz ou água. Contas particulares já são tantas, imagina mais as do Ernani.  Aí já é demais!

Começou o inverno

Inverno pode ser uma estação linda, as roupas são mais estilosas, o clima apetece um vinhozinho e uma noite charmosa em frente à lareira, mas também é uma estação sinistra, principalmente quando chove ou tem neblina. Ou ambos. Daí fica difícil sair de casa, além de não se enxergar nada, a chuva vem de baixo para cima. A sombrinha é inútil. Melhor se ensacar.

De manhã cedo a cidade parece fantasma, ninguém nas ruas, chega a dar medo. Mas o dia está lindo e ensolarado, faz pouco frio, sendo assim, uma caminhada pelo centro cai bem. Mas a cidade está deserta, ninguém tirando o mofo e curtindo um sol, mas onde será que se meteu esta gente? Depois reclamam que só chove. Quando o sol, finalmente, aparece, este povo fica em casa, embaixo das cobertas, no mínimo. Azar o deles. Aquele calor esquentando as bochechas e a caminhada segue.  Mas é cedo ainda, interessante acordar de madrugada. Oito da manhã é ma-dru-ga-da. As lojas todas fechadas. Todas. O jeito é curtir as vitrines. A vantagem é que não se gasta dinheiro. Tudo tem seu lado bom. Vagas para estacionar aos montes, em horário de Bancos não sobram nenhuma. Madrugar no inverno tem seus encantos, percebe-se melhor a beleza da cidade, suas casas e seus verdes. Como que nunca havia notado este prédio aqui? Deve ser novo. E a loja que tinha aqui, que fim levou? Fechou ou mudou de endereço? Nos horários de movimento não se percebe as mudanças da cidade. As novas decorações, a limpeza, as flores recém-trocadas.

Chegando ao destino, faltando ainda quinze minutos para a consulta e a médica manda uma mensagem informando que vai se atrasar. Ah vá, fazer o que enquanto ela não chega? Aonde ir? Tudo fechado. Ainda bem que tem uma amiga que mora perto, mas será que ela está acordada ou ainda abraçada no travesseiro? Só ligando para saber. Deu sorte. Ela atende e confirma que tem café e nem desliga na sua cara. Ela ainda de pijama, a casa quentinha, o café na mesa e o papo é gostoso, mas logo o relógio avisa que o horário da médica já chegou. Ou melhor, passou.

Depois da consulta é a vez da caminhada de volta e aí o panorama é outro. Mais pessoas transitando, poucas vagas na rua, tudo mais animado e lojas abertas. Uma boa hora para entrar, olhar e provar alguma roupa, por que não? Por que agora se foi o encanto. O desejo consumista estava presente na ida, quando estava tudo fechado. Agora passou a vontade. Agora a vontade é ir pra casa e acender a lareira. Síndrome do contra.

 

CASA DA PRAIA

Sempre fui bem recebida nas casas de praia por onde andei, tanto com família, como com amigos. Belos momentos desfrutei, muitas risadas e não  poucas cervejas compartilhadas. Muito agradecida eu sou, do fundo do meu coração.

Mas hoje, depois de tantos anos, depois de muito protelar, depois de muito encontrar motivos para continuar na carona, imaginando o custo alto de ter uma casa na praia, alta também a manutenção, a ideia de perder oportunidades de conhecer outros lugares com a grana economizada, eu cedi. Dei o braço a torcer. O tempo passou, as filhas cresceram, as ideias mudaram e veio a tentação. Tão rápido como escolher o sabor do picolé na beira da praia, veio a vontade de ter a própria casa na praia. E hoje, há exatos oito meses a contar do início da obra, eu tenho a minha casa. A minha casa na praia. A minha cozinha, o meu quarto e o meu banheiro. E de troco, a minha bagunça, do meu jeito e com o meu cheiro.  Um lugar pra chamar de meu, um lugar onde eu possa me esconder, um lugar pra me aconchegar. É pra lá que eu quero fugir quando a cidade estiver transbordando de turistas, é pra lá que eu quero ir quando precisar de um retiro. É pra lá que eu quero levar meus amigos. É lá que minhas filhas irão com seus amigos pra quebrar o silêncio e incomodar um pouco os vizinhos. É lá que terei um pouco mais de segurança, mesmo que no psicológico.

O investimento é alto. Bastante. Mas a felicidade é maior e o prazer de ter a própria casa é maior ainda. Já adorei os vizinhos de cerca, um deles me ofereceu até entrada livre em sua horta, a outra vizinha, que não é de cerca e sim de lago, me socorre com todos os serviços de que preciso, e diga-se que foram mãos de obra de primeira. Ainda tem muitos vizinhos pra conhecer, mas é só questão de tempo. Adorei também o pessoal de serviço do condomínio; porteiros, recepcionistas, seguranças, lixeiros, todos de extrema simpatia. Lugar ideal para curtir um dia de sol. E se chover, nenhum problema. A curtição será a mesma. É para isso que servem os jogos de canastra, os livros, as palavras cruzadas e os travesseiros. Além disso, os dias de chuva molham a grama e dão uma trégua para a pele.

Perguntam-me se não tenho saudades de casa. Óbvio que tenho. Mas a casa da praia também é minha, o que torna minha saudade bem mais amena. Quando a gente está longe de casa sempre dá prazer em voltar, mas neste caso não conta. Neste caso é uma extensão. Uma linha tênue que leva de um lugar a outro em pouco tempo, nem duas horas. Uma linha que se pode percorrer a qualquer hora. Basta carregar o carro e pegar a bagagem. E na bagagem apenas a vontade de mudar de ares e a chave da casa. Nada mais.

Coisas de cidade grande

Há poucos dias escrevi sobre coisas de cidade do interior e hoje escrevo sobre as metrópoles. Elas são menos charmosas, menos aconchegantes e estão longe de terem aquelas facilidades, mas também tem seus encantos e suas diversidades.

Na cidade grande dá pra escolher o cinema, o filme, o dia da semana e o horário que melhor convir. Dá pra escolher o Shopping Center mais atraente, a praça mais charmosa para dar uma caminhada e tomar um chima. Ou uma caipirinha. Dá pra escolher entre uma visita a uma galeria de arte, ou um museu, ou uma peça de teatro. Tem shows com bastante frequência, tem exposições, jogos de futebol, o lindo pôr do sol e ainda tem brick aos domingos. São opções de lazer e cultura que não acabam mais. Pra todos os gostos. Pra todos os bolsos.

Passear por lá nos finais de semana é melhor ainda, considerando que o movimento diminui, é um pouco mais tranquilo para circular, tem mais vagas para estacionar e não tem parquímetro nem sábado, nem domingo e nem feriado. Maravilha! Tem inúmeras opções de restaurantes e bares, impossível não encontrar nenhum que seja do gosto do cliente. A não ser que o cliente seja muito exigente. Pra não dizer chato. Mas não estamos falando de você. Espero. E, caso prefira ficar em casa, são centenas de tele entregas disponíveis. Alguma há de servir. Lindo de ver os parques aos domingos, os frequentadores vão desde idosos, jovens, crianças e pets, todos lagarteando, conversando, brincando, correndo, jogando bola, exercitando-se, fazendo pic nic.

Sem contar nos supermercados, minha nossa! É um delírio passear por aqueles corredores enormes, incontáveis opções de carnes, frutas, verduras, tudo fresquinho. Material de limpeza tem marcas que você nunca ouviu falar. Ah tem! Azeite de oliva deve ter mais de trinta, certo. E os pães? Dá pra ficar tonta. Duas horas passam voando lá dentro. Duas horas até chegar à seção dos vinhos, melhor pegar outro carrinho. Se preferir cerveja, suco ou até mesmo água, vá pegar outro carrinho igual.

Contrariando o que normalmente acontece, quando pessoas deixam a cidade grande em busca do interior nos finais de semana, para descansar e borboletear, arrisco dizer que o melhor ainda é viver numa cidade do interior e, no sábado e no domingo, ir borboletear na cidade grande. Louco de bom!

 

Coisas de interior

Morar em cidade pequena tem suas vantagens e uma delas é viver como se as ruas fossem extensão da nossa casa e as pessoas, da nossa família. São facilidades que em lugar nenhum mais se encontra. Cidades do interior são como se fossem o bairro de uma grande metrópole, só que um pouco maior.

As empresas tornam-se parceiras e os moradores, amigos. Os problemas são mais fáceis de resolver, a burocracia mais amena e a desconfiança parece não existir. Embaixo do chuveiro, num dia frio, acaba o gás ou o óleo da caldeira, mas basta um telefonema e em menos de trinta minutos o pessoal já está na sua casa para abastecer. Precisa consertar a janela ou a torneira da cozinha, mas não vai ter ninguém em casa durante o dia? Basta combinar um lugarzinho e deixar a chave para o camarada do suporte pegar. No restaurante, caso esteja sem dinheiro para pagar a conta, é possível por no gancho e incluir o valor no próximo almoço, além da equipe lembrar o tipo de vinho da sua preferência. Isto é hilário! Ao abrir a carteira para acertar a despesa no salão de beleza, surpresa, a carteira ficou em casa. É difícil, mas acontece, principalmente com pessoas mais velhas. Sem problema, na próxima vez será pago. No médico, ao acertar os honorários, o talão de cheques acabou, a carteira está vazia e não aceitam cartão de crédito. Pendura que na próxima eu pago. Vai ausentar-se da cidade por alguns dias e não tem alguém para cuidar do cachorro? Chama o jardineiro ou o porteiro, ele ainda pode molhar as plantas.

E as mordomias não param por aí, sua amiga faz pão caseiro e cuca de baunilha toda sexta feira, com entrega a domicílio e ainda, caso não tenha ninguém em casa, deixa na portaria do prédio com o valor do pedido para pagar depois. Mandar o carro para a lavagem é barbada, o rapaz vem no carro dele, tira o seu carro da garagem, leva para o banho e devolve para a sua garagem. Pega o carro dele e vai embora. É mole? Fora que todo mundo se conhece, abana pra um e pra outro, oi pra cá e pra lá. E se você não retribui o aceno é quase uma ofensa, mesmo que o vidro do carro da criatura seja escuro e você não enxergue quem está lá dentro. Não pode. E outra, não ouse falar mal de ninguém, por que em cidade do interior todos acabam sendo parentes, mesmo que distantes. Não cometa esta gafe.

Morar em cidade do interior é ótimo, é tranquilo e ainda é seguro, apesar de que sempre é prudente ter cautela. O trânsito não é caótico, exceto finais de semana de inverno e feriadão. E nestes casos dá pra deixar o carro em casa e andar a pé. E rezar pra não chover, por que daí fica complicado.  Existem alguns macetes, e um deles é fugir da cidade quando ela enche demais. Ir pra capital curtir um cinema, um teatro, um Shopping Center. E no domingo, quando a cidade normaliza, voltar correndo.

Brechó do Bem

E então aconteceu o Brechó do Bem. Foi no último sábado e, de presente, Deus mandou um dia lindo, ensolarado e quente.

Um grupo de pessoas, todas atletas, saradas, lindas e com o mesmo objetivo, fazer o bem. Esta galera faz parte dos Corredores do Bem. Divulgaram, arrecadaram doações de todos os tipos, arregaçaram as mangas e puseram-se a trabalhar. Organizaram tudo o que receberam ao ar livre, num lugar pra lá de gostoso, deixaram suas famílias em casa e instalaram-se lá para vender. E venderam. Venderam muito.

Mas o que esta turma do bem irá fazer com a grana arrecadada? Não foram poucas as pessoas que perguntaram. Calma, já explico. O dinheiro vai para uma conta e seu objetivo é, exclusivamente, auxiliar a compra de remédios e a realização de exames de urgência para aquelas pessoas que não têm condições de pagar. Exames que pelo SUS demoraria meses. O objetivo é aliviar a dor e aumentar a esperança de pessoas carentes. Um trabalho lindo, atitude de amor, doação e amor ao próximo. Esta turma do bem está de parabéns!

Aliás, o que esta galera talvez não saiba é o bem que ela fez para aqueles que doaram seus pertences. Provocaram o desapego, deram o empurrãozinho que faltava para começar a revolução dentro do guarda roupa. E, acreditem, faz um bem danado. Renovar é bom. Arrumar é ótimo. Sendo pra ajudar é melhor ainda.  Roupas que estão há tempo sem uso, saem para abrir espaço, para trocar as energias. Roupas que vão cantar noutra freguesia. Sapatos que há anos não saem do armário, o que é que continuam fazendo ali, além de ocupar espaço e acumular mofo?  Tchau queridos.  Aquelas bijuterias que estão no fundo da gaveta esperando uma oportunidade adequada para saírem dali, mas o momento certo nunca vem. Manda pro brechó. Aqueles óculos que, convenhamos, são lá do tempo do epa, não adianta esperar a moda voltar. E mesmo que ela volte você não vai usar. Certo que alguém vai aproveitar, nem que seja para uma festa a fantasia. Brechó pra eles. Você trocou as cadeiras da sala de jantar e empilhou as antigas na garagem para pegar pó e cupim. Brechó. Abre espaço, criatura. Renove as energias. Você vai ser outra pessoa, mais leve, mais feliz e de troco, generosa. Pode apostar. Que graça tem olhar aquelas prateleiras apinhadas de blusas, os cabides com três camisas, você nunca vê a de baixo. No início é difícil, mas depois vai ficando mais fácil esvaziar o roupeiro, a sala, a garagem, o depósito. A alma se enche de alegria.

O Brechó do Bem já passou, mas terão outros, por que esta corrente não pode parar. Tire uma tarde, duas ou quantas forem necessárias para fazer aquela limpeza geral. Desapegue. Vamos lá, livre-se daquilo que já não usa mais e separa pro brechó. Não posso acreditar que você goste de tranqueira.

Profissão

imagesQual a sua Profissão? É sempre a mesma pergunta. Na recepção do hotel, no cadastro da loja, do médico, do Banco, até mesmo do veterinário. Pode? Mas porque querem tanto saber disto? O mais importante seria saber se você tem dinheiro para pagar a conta do que de onde exatamente ele vem. Certo? Errado. Eles insistem em saber que diabos você faz na vida.

A resposta também é sempre a mesma. Sou administradora. Mas não satisfeitos eles querem saber – mas administradora de quê? Tá bom, vou responder. Já que perguntou, lá vai. Sou administradora de assuntos pessoais, financeiros, médicos e psicológicos. Administro três casas, a minha , a de minhas filhas e a da praia. E se quiser administro a sua também. Tô craque. Administro uma família, a empregada e às vezes a sogra. Administrava pai e mãe também, mas infelizmente não estão  mais aqui. Escuto as conquistas das filhas, as alegrias e tristezas, o início e o fim de um grande amor ou de uma grande amizade. Aconselho. Cuido. Invisto beijos e abraços. Administro também as angústias das amigas e empresto meus ouvidos com o maior prazer. Todo o início de mês é o período de maior movimento no setor financeiro, quando chegam as contas, todas juntas. É um Deus nos acuda. Também faz parte do meu trabalho a procura por um bom profissional na área da saúde, marcar um horário que seja compatível com os horários dos pacientes (pior parte), lembrá-los no dia da consulta e acompanhá-los. E acertar os honorários, claro. Administro as compras da casa, as geladeiras estão sempre vazias, impressionante. Farmácia, lavanderia, Jardineiro. Providencio consertos de todas as espécies. Preparo tudo para receber a família, os amigos e quem mais chegar. Sem contar o cachorro, um setor a parte e que tem dado bastante trabalho ultimamente. Tá bom assim ou quer mais? Tem mais. Muito mais.

Evidente que existem muitas pessoas que, além de administradoras, ainda conseguem ser médicas, arquitetas, advogadas, biólogas, dentistas, empresárias e tantas outras profissões. Dupla jornada. E bota dupla jornada nisso. Alguns felizardos podem contar com babás, empregadas, vovós e titias para dividir algumas tarefas. É um privilégio. E para aqueles que precisam se virar nos trinta sem apoio alheio para dar conta da dupla jornada, não resta mais nada a fazer a não ser tirar o chapéu e dar os mais sinceros parabéns. Não é pra qualquer um, é preciso muita destreza. É preciso rebolar pra conseguir dar conta de tanta coisa.

E parece que cada vez o tempo passa mais depressa, o dia deveria ter quarenta e oito horas, no mínimo. Assim sobraria umas horinhas para ler um bom livro, fazer uma academia e dormir. Ah se ia.